domingo, 17 de maio de 2015

Calvino e Serveto

por
Rev. Augustus Nicodemus Lopes


Gerações sempre estão passando a limpo pontos obscuros da história de seus antepassados. Assistimos, no momento, a tentativa de vários grupos alemães de trazer a lume aspectos do envolvimento do povo alemão no Holocausto que serviriam para amenizar a sombra que paira sobre a nação pelo assassínio de milhares de judeus durante a Segunda Guerra. Recentemente, o Dr. Frans Leonard Schalkwijk em sua obra Igreja e Estado no Brasil Holandês lança luz sobre a figura do “traidor” Calabar, demonstrando que a “traição” foi, na verdade, sua conversão ao Evangelho pregado pelos holandeses reformados. Quem sabe o presente artigo possa ajudar a passar a limpo alguns aspectos do tristemente famoso episódio envolvendo João Calvino e a execução na fogueira do médico espanhol Miguel Serveto, condenado por heresia contra a Trindade, em 1553, em Genebra.
Preciso dizer desde o início que minha intenção não é justificar a participação de Calvino no incidente. Não posso concordar com a pena de morte como castigo para a heresia, muito menos se o método de execução é queimar vivo o faltoso. Até mesmo os maiores heróis do passado tomaram decisões e fizeram declarações que nos causam, séculos depois, estranheza e discordância. Calvino não é nenhuma exceção. Meu alvo neste artigo não é defendê-lo como se ele fosse sem defeitos. É claro que ele os tinha. É claro que ele errou. Mas penso que, particularmente no caso envolvendo a execução de Serveto por heresia em Genebra, durante o tempo em que Calvino ali ministrava, nem sempre vozes se têm levantado para apresentar outra versão dos fatos, versão esta enraizada em documentos confiáveis. Episódios do passado devem ser entendidos à luz dos conceitos e valores da época em que ocorreram. Meu alvo é expor alguns deles que estavam vigentes na época de Calvino, bem como trazer dados frequentemente ignorados sobre o episódio. Não podemos justificar Calvino por pedir a pena de morte para Serveto, mas podemos entender os motivos que o levaram a isto.
Testemunhas que viveram em Genebra, logo após a cidade haver abraçado a Reforma protestante, a viram como “o espelho e modelo de verdadeira devoção, um abrigo para os refugiados perseguidos por sua fé, um lugar seguro para treinar e enviar ao estrangeiro soldados do Evangelho e ministros da Palavra”. Logo que Genebra abraçou a Reforma oficialmente e cortou suas lealdades para com o bispo e Duque de Savóia, a cidade foi inundada por refugiados de toda a Europa. Da noite para o dia Genebra se tornou, depois de Wittenberg, Zurique, e Estrasburgo, um monumento da fé protestante.
Apesar destas observações feitas por pessoas que viveram em Genebra na época destes acontecimentos, as impressões que recebemos de nossos professores de escola secundária provavelmente têm pouco, ou nada, em comum com o depoimento destas testemunhas oculares. Segundo M. Horton, “Imagens abundam de um tirano vestido numa toga preta, organizando o equivalente no século XVI de uma polícia secreta moderna para assegurar que ninguém, a qualquer hora ou qualquer lugar, estivesse se divertindo”. É de admirar que, apesar dos testemunhos em contrário, prevaleceu na opinião pública a idéia de que Genebra era uma teocracia e Calvino era seu Papa!
Em 25 de maio de 1536 os cidadãos de Genebra votaram por aderir à Reforma protestante. Mas isso é só o começo. Sem liderança qualificada, Genebra estava à beira do colapso civil e religioso. O que a república nova precisava era de um jovem visionário.
Calvino chegou em Genebra fugindo das autoridades de Paris. Ele havia inicialmente se encaminhado para a cidade reformada de Estrasburgo, onde Martin Bucer estava pregando. Porém, o Rei francês e o Imperador estavam envolvidos em uma guerra que bloqueou a estrada para a cidade. Frustrado, mas destemido, Calvino tomou um desvio para Genebra durante a noite. De lá não passaria. Ficou, a pedido insistente de Farel, líder protestante da cidade, e depois de algum tempo foi designado o pastor da Igreja de São Pedro, a catedral de Genebra. Tensões entre Calvino, Farel e o Conselho municipal com respeito à celebração da Ceia do Senhor, as atribuições da Igreja e do Estado e o exercício da disciplina, acabaram por levar o Conselho a expulsar Calvino de lá. E ele seguiu, exilado, para Estrasburgo.
Ali (1538-41), Calvino se sentia como se estivesse no céu. Martin Bucer se tornou o seu mentor dele Calvino assumiu o pastorado da Igreja francesa reformada da cidade. Durante este tempo, Calvino publicou alguns dos seus trabalhos mais notáveis; ali casou com Idelette Bure, a viúva de um amigo anabatista. Calvino estava muito feliz lá, mas uma vez mais Genebra estava chamando.
O Conselho municipal escreveu a Calvino pedindo ajuda contra o ensino do Cardeal Sadoleto, que procurava retomar Genebra para a Igreja Católica. Pediu desculpas, e com mais um apelo de Farel, convenceram Calvino a voltar. Dr. McGrath, historiador da Universidade de Oxford, demonstra como mito de “o grande ditador de Geneva” é enraizado em conceitos populares difundidos especialmente pelas obras de Bolsec e Huxley, que fizeram afirmações sem ter qualquer fato histórico que os apoiasse, mas que não obstante acabaram por moldar a visão de Calvino que hoje prevalece em muitos meios evangélicos.
 Calvino não tinha qualquer acesso à máquina decisória do Conselho. Ele mesmo não podia votar e nem concorrer a qualquer cargo político eletivo. E mesmo quanto aos negócios da Igreja, Calvino quase não tinha qualquer poder decisório.
A 25 de outubro de 1553 o Conselho municipal emitiu o decreto que condenava Miguel Serveto à ser queimado na estaca por heresia. De fato, foi Calvino quem o denunciou e quem pediu a pena de morte para ele. Vejamos agora o contexto em que isto aconteceu.
A pena de morte por heresia era prática geral da Idade Média. 
Serveto chegou a Genebra fugido de Viena e da França, onde havia sido condenado à morte pela Igreja Católica, sob a acusação de heresia contra a Trindade. Serveto veio à Genebra apesar dos avisos de Calvino de que isto poderia lhe custar a vida. Chegando em Genebra, se fez conhecido a Calvino em público. Foi preso e, embora Calvino fosse um teólogo e advogado treinado (havia mesmo sido empregado pelo Conselho municipal para traçar a legislação relativa à previdência social e ao planejamento dos serviços de saúde pública), mesmo assim, não foi o promotor do processo eclesiástico contra Serveto. Lembremos que ele não tinha nem os mesmos direitos de um cidadão comum! 
Calvino aceitava a pena de morte, não somente para os que matavam o corpo de seus semelhantes, mas também para os que lhes matavam a alma através do veneno mortal do erro religioso. 
Por outro lado, não foram as convicções teológicas de Calvino que o levaram a isto. Não se pode culpar as suas convicções, particularmente sua firme crença na soberania de Deus, pela execução de Serveto. 
Calvino havia se correspondido com Serveto e há alguma evidência nestas cartas de que ele tinha tentado até mesmo se encontrar clandestinamente com o anti-trinitário para tentar convencê-lo do seu erro. 
Há outro fato a ponderar. Quando foi dada a Serveto a escolha da cidade onde seria julgado, ele escolheu Genebra. A outra opção era Viena, de onde viera fugido. Por alguma razão, ele deve ter pensado que suas chances de sobrevivência eram melhores em Genebra. Porém, o Conselho municipal da cidade, conduzida pela facção dos Libertinos, totalmente contrários a Calvino, estava determinada a mostrar que Genebra era uma cidade reformada e comprometida com os credos. E assim, Serveto foi condenada a ser queimado vivo. 
Calvino suplicou ao Conselho que executasse Serveto de uma maneira mais humanitária do que o ritual tradicional de queima de hereges. Mas, claro, o Conselho municipal recusou o argumento de Calvino. Farel visitou Calvino durante a execução. Calvino estava tão transtornado, como foi mais tarde reportado, que Farel partiu sem dizer até mesmo adeus. 
A execução de Serveto foi aprovada por todas as demais cidades-estados reformadas, e por todos os reformadores. Lutero e Zwinglio já havia morrido, mas certamente haveriam concordado. Os demais, Bullinger, Beza, Bucer, etc.. todos deram apoio irrestrito à Calvino.
Estes são alguns fatos que devemos lembrar, antes de chamarmos Calvino de “assassino”. Durante este mesmo período, a propósito, trinta e nove hereges foram queimados em Paris, vítimas da Inquisição católica, que estava sendo aplicada com rigor na Espanha e Itália, e outras partes de Europa. Apesar de que muitos que não eram ortodoxos buscaram (e encontraram) refúgio em Genebra, fugindo das autoridades católicas, Serveto foi o único herege a ser queimado lá durante a carreira distinta de Calvino. 
Até mesmo os Judeus foram convidados pelas cidades-estados reformadas para se abrigarem nelas, fugindo da Inquisição. O puritano Oliver Cromwell, líder do Parlamento inglês por uma época, mais tarde tornou a Inglaterra um abrigo seguro para os dissidentes religiosos, e especialmente para os judeus. O mesmo ocorreu nos Países Baixos (atual Holanda). E mesmo hoje, Genebra e Estrasburgo, outrora reformadas, figuram no topo da lista como cidades que se destacam em termos de direitos humanos e relações internacionais. 
O que muitos ignoram é que Calvino era um pastor atencioso, que visitou pacientes terminais de doenças contagiosas no hospital que ele mesmo havia estabelecido, embora fosse advertido dos perigos de contato. Foi ele quem instou o Conselho a afiançar empréstimos a baixos juros para os pobres. Foi ele quem defendeu a educação universal, livre para todos os habitantes o cidade, como Lutero e os outros reformadores tinha feito. Sua preocupação diária em 1541 era como dar à Genebra uma Universidade. 
Eis aqui o famoso “tirano de Genebra”! Penning escreve que, pelo fim da vida de Calvino, ao ser visto nas ruas da cidade, os moradores diziam, “Lá vai nosso Mestre Calvino”. Em 10 de março de 1564 o Conselho decretou um dia de oração para a saúde de Calvino e o reformador recuperou-se durante um tempo. Na Páscoa deste ano Calvino foi levado à igreja carregado em sua cadeira para participar da Ceia do Senhor, devido ao seu extremo estado de fraqueza,. Quando a enorme congregação o viu chegar assim, começou a se lamentar e a chorar. No sábado, 27 de maio, Calvino morria, aos cinqüenta-cinco anos de idade. Quando à noite as notícias da sua morte se espalharam pela cidade, “Genebra lamentou-se como uma nação lamenta quando perde seu benfeitor”, escreve Penning.
A execução de Serveto permanece como uma mancha na história da carreira distinta de Calvino em Genebra. Usá-la, porém, para denegrir sua imagem, para atacar a sua teologia, e para envergonhar os calvinistas, é expediente preconceituoso de quem não deseja ver todos os fatos. 



Sobre o autor:
Dr. Augustus Nicodemus G. Lopes Doutorou-se em Hermenêutica e Estudos Bíblicos (Ph.D., NT) no Westminster Theological Seminary (1993). É Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de vários livros, entre eles "Calvino, o Teólogo do Espírito Santo" (1996), "O que Você Precisa Saber sobre Batalha Espiritual" (1997), "Calvino e a Responsabilidade Social da Igreja" (1997), "A Bíblia e a Sua Família" (2001), "O Culto Espiritual" (2001), "A Bíblia e Seus Intérpretes" (2004), além de diversos artigos.

Fonte: http://www.monergismo.com/textos/jcalvino/calvino_serveto_augustus.htm

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Espiritualidade e Espiritualidades

Por
Rev. Ricardo Barbosa de Souza

BUSCANDO UMA DEFINIÇÃO
          Espiritualidade é o tema da agenda religiosa nesta virada de milénio. Em todos os encontros, debates e discussões ela está presente. Não apenas no universo teológico, mas cultural, empresarial, económico, etc. Todos conversam sobre o assunto, falam de suas experiências, descrevem seu momento espiritual. Empresas preocupam-se com o estado espiritual dos seus executivos, cursos e palestras são oferecidos, livros e revistas especializados no assunto surgem a cada dia. Mas, como diz o Rev. Eugene Peterson, quando encontramos um grupo de homens conversando sobre colesterol é porque estão preocupados com sua saúde, alguma coisa não vai bem, doutra forma, não conversariam sobre o assunto. Quando vemos e ouvimos muita gente conversando e lendo sobre espiritualidade é um mau sinal, a luz vermelha está acesa, é um tema que preocupa, que não está de todo resolvido, há inquietações.
Antes de mais nada é bom lembrar que quando falamos de espiritualidade não estamos nos referindo apenas à obra do Espírito Santo, mas também aos movimentos do espírito humano na busca por identidade e significado. Neste sentido podemos falar de espiritualidades. Não se trata de uma realidade, mas de várias, com expressões e formas diferentes.
Talvez, nunca vivemos na história um período tão marcado pela busca do sagrado e por uma abertura espiritual como vivemos hoje. Isto se vê mais acentuadamente na cultura ocidental que durante quatro séculos se viu reprimida pela ditadura racional. O racionalismo determinou o sentido e o significado da realidade humana e, qualquer expressão que não pudesse ser definida pela lógica da ciência, era considerada falsa. O que vemos hoje não é outra coisa senão uma revolução do espírito humano protestando contra a repressão que viveu sob a bota do iluminismo.
A segunda metade deste século foi marcada por várias rebeliões e protestos. O movimento "hippie" dos anos 60 e 70 que protestou contra a repressão moral, a guerra do Vietnã, consumismo, levantando a bandeira do amor livre, do uso das drogras, da quebra dos preconceitos e tabus. O movimento feminista que lutou pêlos direitos das mulheres, contra uma sociedade machista que não apenas oprimia as mulheres, mas impunha um modelo social masculino. No campo político tivemos a "perestroika" e a "glasnost", a queda do muro de Berlim, o colapso das estruturas políticas totalitárias e o surgimento do neo liberalismo com a promessa de uma economia globalizada. O surgimento dos livros de auto ajuda e a descoberta da inteligência emocional abriu um novo espaço nos centros que até pouco tempo atrás eram dominados pêlos tecnocratas. No mundo evangélico tivemos a renovação carismática dos anos 60, o movimento da música "gospel" no final doç anos 80 e 90, e o surgimento das igrejas neo pentecostais ou pós pentecostais com as promessas de saúde, riqueza e felicidade instantâneas.
Tudo isto são manifestações de protesto do espírito humano, e o protesto tinha um endereço, a opressão do totalitarismo racional. A cultura moderna gerou um espírito moderno que considerava como verdadeiro somente aquilo que podia ser comprovado cientificamente e compreendido racionalmente. O protesto veio nos dizer que existe uma verdade mais profunda do que a leitura superficial do racionalismo impessoal. Era isto que Pascal protestou quando disse que "o coração tem razões que a própria razão desconhece"; foi também o que a revolução psicoterapeuta iniciada por Freud no final do século passado quis mostrar.

O DESAFIO DA CULTURA MODERNA PARA A ESPIRITUALIDADE CRISTÃ
          A Reforma Protestante ancorada no renascimento e posteriormente no iluminismo, trouxe, sem dúvida, uma grande contribuição e um avanço teológico para o cristianismo. Libertou a igreja da opressão da ignorância e da superstição do final da idade média O desenvolvimento de uma teologia sistemática deu substância para uma fé e uma compreenção mais adequada da experiência espiritual. No entanto, a exigência de uma fé articulada racionalmente acabou reprimindo os anseios do espírito e deu a teologia sistemática o honroso título de "rainha das teologias". Conhecer a Deus implicava em dominar os dogmas da fé. Conhecimento passou a ser um atributo exclusivo da razão. Enquanto que nos primeiros séculos da era cristã, tanto para os pais da igreja como para os pais do deserto, o conhecimento e o relacionamento eram inseparáveis, para a era moderna tornaram-se coisas distintas.
Para os pais da igreja, conhecer a Deus implicava em ama-lo. A teologia e a oração não eram tarefas distintas. No período pré-moderno, não vemos uma separação acentuada entre o conhecimento e relacionamento. Gregório, o Grande do século VI já afirmava que "amor é conhecimento". Se olharmos para as obras de Irineu e Orígenes do segundo e terceiro século, Agostinho e os irmãos da Capadócia do quarto século; Benedito e Gregório do sexto; Simeão, o Novo Teólogo do décimo; Bernardo da Clareval e Ricardo de São Victor do décimo-segundo; Boaventura do décimo-terceiro e Walter Hilton do décimo-quarto, vemos que para todos eles, conhecimento e amor, teologia e relacionamento eram a mesma coisa Sua teologia não era outra coisa senão sua própria experiênia com Deus. "As Confissões" de Agostinho, as "Regras Monásticas" de Benedito de Núrcia, o "Cuidado Pastoral" de Gregório, o Grande, as "Orações" de Simeão, os comentários de Cantares e outros escritos der Bernardo, todos eram expressões de sua fé pessoal, de seu amor por Deus, de sua vida de oração. Não havia o divórcio entre teologia e espiritualidade. Pacômio, do século onze afirmou que: "orar é fazer teologia". A teologia emergia da oração. Não eram diferentes.
O divórcio entre a teologia e a espiritualidade surge no fim da idade média com o escolasticismo. Se de um lado Gregório afirmava no século sexto que amor é conhecimento, agora Tomás de Aquino no século décimo terceiro distinguia o conhecimento de Deus que surgia do amor e relação com ele, daquele que era propriamente científico e dogmático. A partir do século dezesseis e dezessete vemos que a separação da teologia da vida espiritual ganha corpo na medida em que ela torna-se cada vez mais subdividida. O iluminismo gerou um novo tipo de teólogo: aquele que nunca orou.
Chegamos no final do século vinte, depois de duas guerras mundiais e muitos outros conflitos de natureza política, económica e étnica, com um sentimento de fracasso, vazio e descrença para com os modelos políticos e teorias racionais. Surgem neste contexto vários movimentos espirituais, muitos de natureza esotérica, buscando aquilo que as grandes ideologias racionalistas falharam em proporcionar ao ser humano. É neste contexto que o cristianismo enfrenta seu grande desafio. De um lado, há o desafio teológico, de preservar fundamentos, estabelecer alicerces, construir as bases. De outro, o desafio espiritual, de considerar as demandas e anseios do espírito, o lugar e significado da oração e do relacionamento pessoal com Deus. Segundo o Prof. James Houston, o desafio que temos é o de buscar uma teologia mais espiritual e uma espiritualidade mais teológica.
TEOLOGIA MAIS ESPIRITUAL
          Precisamos de uma teologia que nos desperte para um relacionamento pessoal e verdadeiro com Deus. Noutras palavras, uma teologia que nos aponte o caminho da oração, que seja mais pessoal e afetiva, e não apenas académica. É lamentável constatar que muitos estudantes que entram para um seminário motivados por um profundo amor por Deus e desejo de servi-lo, depois de quatro ou cinco anos de estudo, saem orando menos, afetivamente mais atrofiados e mais limitados relacionalmente. Uma teologia que não nos motive para a oração, certamente não cumpre com seu papel.

'Deus nos chama para participarmos da eterna comunhão que o Pai, o Filho e o Espirito Santo gozara Este relacionamento é a razão primeira e última da teologia. Quando perguntaram para Jesus qual era o maior de todos os mandamentos, sua resposta apontou para uma dimensão relacional e afetiva: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos." Este era o fim da teologia, a razão de ser dos mandamentos e dos profetas. O apóstolo João nos dá a resposta mais simples e ao mesmo tempo profunda sobre o conhecimento de Deus. Ao afirmar que "Deus é amor" ele define a natureza pessoal do Deus Bíblico.
Uma teologia mais espiritual deve ocupar-se com a conversão das emoções e não somente com a conversão das convicções. Julia Gaita, escrevendo sobre o pensamento de Walter Hilton, místico cristão que viveu na Inglaterra no século XIV e trabalhou este tema da conversão das emoções, afirma: "...A totalidade do ser está envolvida no processo de união com Cristo. Tanto nossa mente como nossos sentimentos precisam caminhar em direção à conversão, à progressiva purificação e, finalmente, à transformação. A renovação intelectual, se não é mais fácil, no mínimo é um assunto relativamente mais simples, comparado com a redenção da afetividade. A emoção, especialmente emoção religiosa, é um fenómeno complexo. O fruto do Espírito não pode ser igualado a um simples 'sentir-se bem'... Como em todos os outros aspectos da natureza humana, a afetividade precisa ser interpretada, disciplinada e, finalmente, redimida." O racionalismo preocupou-se com as convicções. Hoje vemos que a fé tem uma complexidade emocional maior que imaginamos.
Uma teologia mais espiritual deve também resgatar a figura do "santo" e do "sábio" ao invés de valorizar apenas o "teólogo" ou o "PhD". O "santo" ou o "sábio" que pode ser também chamado de "pai" ou "mentor" é alguém que, além de possuir o domínio da ciência, possui também a sabedoria que penetra os segredos da alma. Santo Agostinho fala do "duplo conhecimento", de Deus e de nós mesmos. Ele escreve: "Permita-me conhecer a ti ó Deus, permita-me conhecer a mim mesmo, isto é tudo". Para Agostinho, conhecer a Deus implica em conhecer a nós mesmos. Jesus foi um Mestre que não apenas expunha as Escrituras e revelava a natureza do Pai, como também expunha o espírito humano e revelava os segredos mais íntimos do coração. Jesus era um santo, um sábio, um mestre, um mentor. A partir de Cristo podemos perguntar: Quem é o verdadeiro teólogo? Aquele defendeu uma brilhante tese de doutorado, escreveu o melhor livro, estudou nas melhores escolas ou aquele que, em Cristo, dá sentido à vida confusa e desestruturada das pessoas?
Uma teologia mais espiritual deve nos conduzir a dar mais valor aos acontecimentos simples e rotineiros e não apenas aos grandes e glamorosos. Eugene Peterson diz que temos uma tendência a olhar para a vida com a ótica jornalística. Buscamos o grande, valorizamos o extraordinário, exaltamos o glamoroso. Mas as páginas dos evangelhos e as melhores tradições cristãs nos ensinam que a graça de Deus atua nos acontecimentos simples e rotineiros do dia-a-día. Precisamos de uma teologia que nos ajude a perceber e valorizar aquilo que Deus está realizando em nós. O salmista percebe o valor das coisas pequenas e simples ao dizer: "Senhor, não é soberbo o meu coração, nem altivo meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim. Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo".
Uma teologia mais espiritual requer também uma linguagem mais espiritual e menos técnica. Não me refiro a uma linguagem espiritualizada, mas uma linguagem que desperte os desejos do coração, que convide à intimidade. Grande parte da Bíblia trabalha com uma linguagem poética ou narrativa. O apóstolo Paulo procura sempre uma forma pessoal de comunicar a verdade do evangelho. Não se trata de reduzir ou simplificar. Sempre lutamos contra a preguiça intelectual, mas precisamos reconhecer que há uma outra linguagem menos técnica, mais íntima; menos professoral e mais pessoal para comunicar o evangelho.

UMA ESPIRITUALIDADE MAIS TEOLÓGICA
Se de um lado necessitamos de uma teologia mais espiritual, que se ocupe com lodo o homem, integral, por outro, precisamos também de uma espiritualidade mais teológica, que estabeleça limites, que defina os contornos e que dê a base. Reconhecemos que há um protesto do espírto humano, uma busca pelo íntimo, pelo sagrado, por um significado que transcenda nossas narrativas racionais, que penetre e toque na alma humana. No entanto, reconhecemos também que uma espiritualidade esotérica, narcisista, centrada no ser e no bem estar, mais fundamentada na psicologia e antropologia moderna e não na teologia, também não irá preencher as lacunas do homem criado a imagem e semelhança de Deus. Por uma espiritualidade mais teológica, reconhecemos que necessitamos de:
1. Uma espiritualidade trinitária. A doutrina da Trindade é o fundamento para uma espiritualidade cristã e teologicamente bíblica Ela nos revela um Deus que nos convida para participar da comunhão que o Pai, Filho e Espirito Santo gozam desde toda a eternidade. Ao ser criado à imagem e semelhança de Deus, fomos criados para a comunhão trinitária. Em sua "oração sacerdotal", Jesus diz: "Para que sejam um, como és tu ó Pai em mim e eu em ti, sejam eles também em nós...". O convite de Jesus é para que a comunhão que o Filho e o Pai gozam seja também compartilhada por aqueles que foram, em Cristo, reconciliados com Deus. É por meio da doutrina da Trindade que entendemos a natureza da pessoa e da espiritualidade crista. Os pais da antiga Capadócia diziam: "o ser de Deus só pode ser conhecido através de relacionamentos pessoais e do amor pessoal. Ser significa vida e vida significa comunhão". Não há conhecimento possível do Filho sem a participação do Pai, e nem há possibilidade de conhecimento do Pai sem a revelação do Filho. Se não entendemos a comunhão no ser trinitário de Deus, não podemos conhecer a Deus. "Foi desta maneira que o mundo antigo ouviu pela primeira vez que é a comunhão que forma o ser, que nada existe sem ela, nem mesmo Deus" (John Zizioulas).
2. Uma espiritualidade cristocêntrica. O propósito da espiritualidade cristã é o nosso crescimento em direção a Cristo, ser conformados à imagem de Jesus Cristo. Não se trata de um ajustamento sociológico ou psicológico, de sentir-se bem emocionalmente ou socialmente, mas de um processo de crescimento e transformação. Para Paulo isto significa caminhar em direção à perfeita varonilidade, à medida de estatura de Cristo. Ele mesmo afirma que a vida encontra-se oculta em Cristo e, por esta razão, devemos buscar as coisas do alto onde Cristo vive. O fim da espiritualidade cristã esta numa humanidade madura e completa em Cristo.
3. Uma espiritualidade comunitária. Uma vez que a natureza de Deus é relacional, a natureza da pessoa regenerada em Cristo é igualmente relacional. A conversão é a transformação do indivíduo em pessoa O indivíduo é o ser encapsulado em si mesmo, que se realiza na auto promoção, é narcisista, concebe a liberdade apenas em termos de autonomia e independência. A pessoa é o ser em comunhão, que se realiza nas relações de afeto e amizade, é altruísta, concebe a liberdade em termos de entrega, obediência e amor auto doado.
4. Uma espiritualidade centrada na Palavra de Deus. Como já vimos, o propósito da espiritualidade cristã é o nosso crescimento em Cnsto. É o processo no qual somos transformados pela Palavra de Deus participando cada vez mais da vida em Cristo. O apóstolo Paulo diz que uma vez que fomos ressussitados com Cristo, nossa vida está oculta em Cristo. Portanto, a vida espiritual não é um processo de ajuste aos valores sociais dominantes, mas um caminho que envolve crise e transformação, onde a tensão entre a Palavra de Deus e o mundo estarão sempre presentes.
Esta tensão se dá através de dois movimentos: O primeiro é o confronto entre a Palavra de Deus e a ordem social, moral e religiosa dominantes. Sabemos que a leitura e meditação nas 5
Sagradas Escrituras nos consola, edifica e conforta, mas também nos desafia, provoca e confronta Este confronto exige um diálogo constante entre a Palavra de Deus e o mundo que vivemos. Paulo escreve aos romanos e roga para que não sejam conformados com o mundo, mas transformados pela renovação da mente. Noutra ocasião, ele fala da necessidade de termos a "mente de Cristo", ou seja, pensarmos com os mesmos critérios, valores e princípios que Cristo pensava.
Um segundo movimento é o confronto entre a Palavra de Deus e o nosso mundo interior. Todos nós trazemos do nosso passado lembranças, memórias e imagens que turvam nossa compreensão de Deus e de nós mesmos. São sentimentos negativos de abandono, medo, solidão que formam em nós uma auto-imagem também negativa de inadequação e rejeição, que por sua vez compromete nossa imagem de Deus. Carregamos conosco mágoas, resentimentos, invejas e ciúmes que nos induzem a usar a Deus ao invés de sermos usados por de, que provocam uma relação confusa e manipuladora ao invés de uma entrega serena e confiante. É preciso deixar a Palavra de Deus iluminar nosso mundo interior, transformá-lo em Cristo, restaurar nossa vida à imagem de Deus e resgatar a imagem do Deus revelado em Cristo Jesus.
A Bíblia como instrumento de transformação e crucificação exige de nós uma aproximação devocional. Reverência e silêncio são posturas básicas de quem deseja ser consolado, confrontado e transformado. É ela quem estabelece o diálogo entre nós e o mundo, seja o mundo exterior ou interior, e nos transforma em Cristo.
5. Uma espiritualidade missionária. A igreja não tem uma missão que seja sua própria, ela participa na "Missio Dei", da mesma forma com Cristo afirma que não tem uma palavra, juízo ou missão que seja sua, mas que sua comida e bebida consiste em fazer a vontade do Pai e realizar a sua obra Oração e missão precisam caminhar juntas. Oramos para que nossos caminhos sejam convertidos nos caminhos de Deus, para que nossos pensamentos sejam transformados, para que nossos conceitos de justiça, direito, verdade sejam conformados com os de Deus. Frequentemente confundimos os nossos conceitos com os de Deus, achamos que temos uma missão, que conhecemos a natureza da justiça e do direito divino.
A tentação no deserto foi uma experiência definidora da vocação e missão de Jesus. Sua rejeição aos caminhos propostos por Satanás que, segundo Nouwen, apontam para o imediatismo, o mágico, o popular, o espetacular, para o ser poderoso, próspero, apresenta uma nova forma de ver a missão e realizar a obra de Deus. Jesus rejeita as alternativas que derivam do poder, para abraçar um projeto que nasce da graça e se encarna no amor de Deus para com os homens.
Não há como separar a espiritualidade de Jesus de sua missão. Num dos momentos mais críticos de sua vocação, Jesus diz a Filipe e André: "Agora está angustiada a minha alma, e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente com este propósito vim para esta hora". A agenda da oração de Jesus foi determinada pela sua vocação e não pelas necessidade pessoais. Qualquer um, diante das angustias da alma, oraria para que fossem aliviadas, curadas, redimidas. Jesus, no entanto, sabe para que veio, reconhece que não é ele que determina a pauta de suas orações. Então ora e diz: "Pai, glorifica o teu nome". Era a glória do Pai, o cumprimento do seu propósito, a missão que recebera dele, que determinou sua oração. O objeto da oração de Jesus era o Pai, não ele próprio. Era a missão do Pai, não a sua
CONCLUSÃO
O mundo, na virada do milénio, tornou-se mais espiritual, mais aberto ao mistério, mais psicológico, íntimo, emocional. Antes, o tribunal que julgava as questões humanas, era o tribunal da razão. Era preciso estabelecer a verdade ao argumento da lógica. Cria-se naquilo que era 6 racionalmente demonstrado. Hoje, o tribunal que julga as questões humanas é o tribunal das emoções. A verdade é determinada mais pelo sentimento do que pela lógica da razão. Hoje se crê naquilo que é emocional mente compensador.
O culto que herdamos dos reformadores tem como centro as Escrituras e sua exposição cuidadosamente elaborada com a ajuda das ferramentas exegéticas e hermenêuticas. O culto moderno transferiu seu eixo central, deixou de lado as escrituras e a exposição e colocou no lugar o louvor, geralmente com músicas de letra pouco consistentes e melodias que apelam para as emoções. Além da música, temos também a ministração de curas interiores, testemunhos de prosperidade e exorcismos.
Os livros que mais vendem são os que tratam de temas relacionados com guerra espiritual, cura interior, conflitos relacionais. O interesse pela teologia, pela reflexão séria e multidisciplinar, pelo estudo cuidadoso das escrituras vem rapidamente perdendo seu espaço e apelo para as novas gerações.

Certamente, o saudosismo não nos ajudará a responder as questões que se colocam diante de nós. A resposta não está em voltar atrás, em redimir o passado. Temos novas perguntas diante de nós, novas demandas pastorais e novos desafios teológicos. É preciso reconhecer que por muito tempo reduzimos o homem todo a um ser racional, que o divórcio da teologia sistemática com a teologia espiritual nos conduziu a uma espiritualidade mais cognitiva e menos afetiva e pessoal. Precisamos reconhecer que o propósito da teologia não é o de dar-nos mais um título de Phd e tornar nossa linguagem mais técnica e confusa, nem tampouco elevar nosso ego e tornar-nos mais narcisistas. O propósito da teologia é o de nos tornar sábios para a salvação, de dar sentido (emocional, psicológico, moral e intelectual) a vida O verdadeiro teólogo não é aquele que escreveu livro mais volumoso, a tese mais complexa, o discurso mais erudito, mas aquele que encontrou o caminho da comunhão com Deus. que aprendeu a amar o Senhor de todo coração alma e força, que ama ao próximo como a si mesmo, que ora, que conhece a Deus e conhece a si próprio e que ajuda os outros a encontrarem o sentido de suas vidas e tornarem-se sábios para a salvação em Cristo.

Este site da web é uma realização de

Felipe Sabino de Araújo Neto
Proclamando o Evangelho Genuíno de CRISTO JESUS, que é o poder de DEUS para salvação de todo aquele que crê.